lembranças do cheiro de fumo nos salões de destalação


A cultura fumageira foi parte da construção da identidade da nossa cidade tanto quanto foi o sangue que correu nas veias de 10 gerações de arapiraquenses. A terra do fumo sempre nos pareceu o lugar das oportunidades de trabalho (destalar fumo) e de renda (fumicultores). Para quem viveu em Arapiraca entre os anos 50 e 80 pode ver de perto todo o aparato técnico para dar vazão às inúmeras grandes safras das plantações de tabaco que cobriram de verde a paisagem rural nos arredores da cidade.

A avenida mais chic da cidade pôs uma folha de fumo na antiga entrada da cidade, um marco, um símbolo bem conhecido dos moradores e dos visitantes. A folha do fumo como símbolo da nossa capacidade de produzir riquezas. Nesse embalo surgiu o Clube dos Fumicultores, espaço destinado a pequena burguesia que as vendas do fumo começava a criar. A riqueza do fumo alimentou as famílias antigas da cidade, projetou e possibilitou as primeiras fortunas no espaço desse capitalismo agreste.

O processo de produção do tabaco se dava, primeiro, com a plantação do fumo. Folhas verdes e grandes amadureciam no horizonte. Então o tempo da colheita. Os plantadores de fumo colhiam e levavam sua produção para salões aonde se encontravam os destaladores.
Depois de retirada da terra, as folhas ficam em varais de madeira para um primeiro processo de secagem natural, ao sol. Quem atravessa Arapiraca na época de colheita pode ver inúmeros varais de fumo a secar nos arredores da cidade. Depois de secos, o fumo é recolhido para ser levado para a destalação.


O processo de destalação do fumo consiste basicamente na retirada do talo da folha. A folha livre do talo é em seguida colocada uma sobre as outras, formando um amontoado de folhas. Desse amontoado de folhas segue-se o processo de fazê-las um rolo de fumo. Folha a folha é colocada uma sobre a outra, enrolando aos poucos, como quem faz uma corda. Aliás, o fumo enrolado e seco é chamado fumo de corda.

No fim de cada dia, as casas e os salões estavam lotados de "moios" ou "molhos" de fumo. Este era pesado. O destalador recebia um cartão que indicava o peso. Com esse cartão-moeda de papel recebia-se do dono do fumo pelo trabalho de destalador. Toneladas de fumo naqueles salões e o cheiro ácido e forte do tabaco por todos os poros.

Esse fumo de corda é um produto in natura, já tratado, porém ainda bruto. Esse fumo relativamente tratado (de corda) é vendido nas feiras livres, e para a indústria tabagista. É comum encontrar no mercado municipal, na feira e nos mercadinhos pacotes de 100g de fumo tratado pronto para fazer cigarros.


O cigarro pacaio é feito de fumo de corda, picado, que se coloca numa seda própria para fechar o cigarro. É um cigarro tradicional, que os mais velhos fumavam, e que ainda persiste como parte do domínio e do patrimônio tabagista local.

A indústria fumageira, que possui vários salões de armazenamento de fumo bruto na cidade, vende tabaco para a indústria nacional e internacional. Europeus e norte-americanos sempre vieram à Arapiraca negociar toneladas de fumo bruto para industrializar cigarros em seus países.

Há poucos anos houve uma reorientação local, regional e nacional contra a industria do tabaco e procurou-se entre nós alternativas. Comcomitante à produção fumageira foi-se dando apoio público a uma diversificação maior das plantações. A agricultura familiar impôs o rearranjo de antigas plantações de fumo por verduras e hortaliças. Isso enfraqueceu sobremaneira o espaço para culturas fumageiras. Mas estas não desapareceram. Estas começaram a migrar para cidades da região metropolitana, como Lagoa da Canoa, que hoje possui uma produção de tabaco superior a de Arapiraca.

Crédito das fotografias: as três fotografias são de minha autoria.
lembranças do cheiro de fumo nos salões de destalação lembranças do cheiro de fumo nos salões de destalação Reviewed by davy sales on quinta-feira, dezembro 01, 2016 Rating: 5

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